segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Trem noturno e chegada em Esfahan


Chegamos na estação de trem de Teerã animados com a viagem de trem para Esfahan, prevista para durar 7 horas, com saída às 22:45 e chegada às 05:45. Compramos ticket na classe VIP e estávamos ansiosos para descansar na viagem de trem.

Bom, talvez VIP para os serviços iranianos de trem significa Very Insignificant Person porque o vagão era muito ruim. No estilo tradicional de 6 cochettes, ficamos com mais 2 pessoas na nossa cabine, uma senhora e um rapaz, aparentemente filho dela.

Pior do que o trem só a viagem!!

Uma comparação adequada para nossa sensação seria de uma panqueca, sendo jogada para lá e para cá na panela, porque o trem chacoalhava pra caramba. Não me lembro de ter feito uma viagem balançando tanto quanto esta, mas o aspecto positivo da panqueca é que pelo menos na hora de virar de lado eu mesmo cuidei disso, sem precisar de um solavanco do trem, que nos jogasse para cima, único distúrbio ausente desta aventura. E os barulhos? Janela chiando, bandeja de comida que caía, porta batendo. Também foram inúmeras as paradas. E, cada vez que o trem voltava a andar, começava tudo de novo. E o nosso sono foi pro espaço!!!

Bom, mas ao chegarmos no hotel, todo o transtorno da noite no trem foi recompensado pela quietude do lugar ( Bekhradi's Historical House), apesar de termos chegado muito cedo e termos que esperar, pois o nosso quarto só seria liberado ao meio-dia. De novo, outra gentileza desse povo: aceitaram nossa presença fora de hora e é como se já estivéssemos hospedados, pois teremos o breakfast.Pela foto abaixo vocês podem ver o quão charmoso é o nosso hotel.


Pena que teremos que mudar amanhã, porque só conseguimos reserva para uma noite. É que entre 8 e 12 de outubro vai ocorrer um festival e congresso internacional sobre patrimônio intangível e a cidade está lotada. Se não conseguirmos nada, só no resta a praça Naghsh-e Jahan, uma das mais bonitas e maiores do mundo.

(SB e FC)

Restaurante e Machado de Assis


Hoje fomos visitar o Museu de Cerâmica e Vidro, mas infelizmente estava fechado. Na segunda-feira muitos museus fecham e como ontem foi feriado nacional, acabamos visitando menos museus do que gostaríamos.

Bem perto do Museu de Cerâmica e Vidro, fomos almoçar num restaurante charmosinho, chamado Gol-e Rezaiyeh, que fica na rua Tir, número 30. Lugar muito simpático, cheio de fotografias de astros do rock e do cinema. 



No som ambiente, inicialmente jazz. Depois eles partiram para Queen, mas o disco devia estar riscado ou a agulha suja, porque ficou um tempão pulando, sem ninguém tomar atitude. Depois veio “As time goes by”, em duas versões, ambas cantadas por intérpretes caribenhos, aparentemente cubanos. Perto do fim, veio Sting cantando em espanhol aquela música que o imortalizou no Brasil como um chato. Para quem não se lembra, segue trecho da música em português, obedecendo o sotaque do Sting.

“E amanhan
A tchuva levaurá
O tsangue que a lutcha
Deitshow derruamar
Que fruadgilidad, que fruadgilidad"

A decoração do lugar era também legal, mas a comida não era nada de especial. Comi um prato de origem russa, segundo o garçom, que na verdade era uma espécie de almôndega com salada e batata. Vale apenas pelo charme, mas nem de longe uma experiência gastronômica digna de nota.

Saímos a pé em direção ao Museu de Arte Contemporânea na Kargar st e no caminho encontramos uma livraria com fisionomia simpática. Entramos e Fernandinho foi perguntar se eles tinham a edição recém traduzida para a língua persa do livro Quincas Borba, do Machado de Assis. Bom, quando Fernandinho tomou esta decisão, de tentar comprar Machado de Assis em Teerã, eu pensei “tamo fudido. Ele vai gastar meia hora somente para o cara entender o nome do escritor”.

Incrivelmente, assim que Fernandinho mencionou o nome do autor, o cara da loja disse que eles tinham 2 livros do Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro, mas que infelizmente Quincas Borba ainda não, provavelmente porque o livro foi lançado mas não chegou às livrarias. Eu quase cai de costas!! Me lembrei na hora de uma vez que fui na livraria Escariz, em Aracaju, e pedi Julio Verne e o vendedor perguntou se era música clássica.

O duro foi achar resposta para a pergunta do vendedor, que queria saber quais autores da literatura iraniana os brasileiros mais gostavam.
 
Ah, chegamos tarde no Museu de Arte Contemporânea. Já estava fechando. Aí ficamos sentados no parque ao lado do museu.



(SB e FC)

Trânsito em Teerã


Antes de falar do trânsito de Teerã, acho importante revermos o conceito da palavra “preferencial”.

Vou tomar um exemplo para ilustrar esta importância. Você vem num taxi velho, numa ruazinha pequena, numa velocidade acima do recomendável. Aí você vê adiante uma avenida larga, com 4 faixas, carros em alta velocidade. No Brasil a gente costuma parar pouco antes da faixa de pedestre (quando tem uma) e avançar com cuidado, posicionando a frente do veículo na linha imaginária que ligaria as 2 calçadas à frente, para olhar com cuidado e só depois entrar ou atravessar a avenida.

Em Teerã não funciona assim. O taxi enfia metade do carro na avenida e o seu coração vai ainda um pouco além, porque você tem certeza de que um caminhão ou ônibus vai pegar você no meio. Aí há algum tipo de sinalização telepática entre os diversos motoristas, que decidem ali mesmo, no meio da confusão, quem avança e quem espera. Não há lógica, mas funciona para eles.

Outra curiosidade é atravessar a rua ou avenida. Você até encontra faixas de pedestres, mas elas de pouco adiantam e são pouco usadas. O comum aqui são as pessoas irem atravessando no meio da avenida, passando no meio dos carros, que também obedecem a algum código secreto e invisível de comunicação porque não vimos ninguém ser atropelado, apesar das inúmeras razões.

Fernandinho mencionou uma ótima metáfora para descrever esta experiência de atravessar uma avenida em Teerã. É como se fosse num boliche, sendo que você é o pino e os carros são as bolas. Ou seja, se tudo der certo, você será atropelado.

domingo, 5 de outubro de 2014

Terceiro dia - concerto de música folclórica


Noite muito especial a de hoje. Com a ajuda do nosso amigo do hotel, o mesmo que conseguiu achar o lugar para vermos a apresentação do Zurkhaneh e também indicou a incrível loja de Cds, conseguimos ingressos para irmos assistir a uma apresentação de um grupo que toca música folclórica iraniana, chamada Rastak Music Group.


O local do concerto foi num complexo que abriga um centro de convenções e a torre Milad, que é a torre mais alta do Irã. Lugar bem moderno e lotado de gente, porque hoje é feriado nacional, religioso.







O concerto foi simplesmente maravilhoso. Achei no youtube um link para acessar uma apresentação do grupo Rastak (16 membros, sendo 11 homens e 5 mulheres), mas o que tornou a noite especial foi a energia da interação do público com a banda. Quando falo em público estou me referindo às mulheres, que batiam palmas, cantavam e gritavam o tempo todo, porque o homem mais animado que vi no máximo batia palmas num compasso de noite de velório.


Ao meu lado esquerdo sentou-se uma senhora de uns 65-70 anos de idade e ao meu lado direito uma menina de uns 14-15 anos. Não dava para dizer bem qual das duas era a mais animada. A senhora batia palmas, cantava e assobiava, daquele jeito usando 2 dedos de cada mão, que até agora meu ouvido esquerdo não voltou ao normal. Já a menina, cantava todas as músicas, gritava o tempo todo e dançava na cadeira, que contaminava. Ela até me perguntou se os gritos estavam me incomodando (vejam só o nível da gentileza desse povo), mas eu disse que daria qualquer coisa para ela não parar, porque estava lindo. Quando falo de grito, por favor não confundam com aqueles gritos histéricos de fãs de Luan Santana ou Michel Teló. Estou me referindo a gritos que fazem parte do folclore de alguns povos, em especial vocalizados pelas mulheres.

Chegamos no hotel por volta da meia-noite. Se este concerto tivesse sido no SESC Pinheiros teria sido inesquecível, mas em Teerã foi mágico.

(SB)



O concerto de música folclórica com o grupo RESTAK foi muito bom! Música animada, festiva, figurinos coloridos. Grupo iraniano, com cores do Azerbajão(?).  As roupas das mulheres (instrumentistas) tenho segurança em dizer que são do Azerbajão...
Público animadíssimo!!!!!!!!!!!! Os músicos também eram muito animados, e inflamavam a platéia.
A percussão e os sopros foram os maiores destaques. Mas o conjunto todo tem excelência musical.
Teatro cheio, acho que lotado (3000 pessoas).

Uma experiência que com certeza ficará guardada com carinho e, acima de tudo, alegria musical.

(FC)

Segundo dia - Museu Nacional do Irã e ou TAAROF


Bom, depois do tempo bem aproveitado na loja de CDs e da casquinha de música iraniana proporcionada pelo nosso amigo, fomos ao...Museu Nacional do Irã, o principal museu de arqueologia do país. A entrada é uma meia abóbada de tijolos, que dá a impressão de uma caverna.




O arquiteto foi um tal de Godard, mas não é o cineasta, não. André Godard (francês)foi um arqueólogo e arquiteto que formou a primeira escola de arquitetura em Teerã. E, passando pela abóbada de tijolos, começamos a visita. Tudo muito interessante, mas vários rótulos dos objetos expostos não informam a data. Mesmo assim, sabemos tratar-se de peças do sexto, quinto séculos antes de Cristo. Tem de objetos muito pequenos (uma agulha, estatuetas de animais, vasinhos, potinhos, etc.) a coisas grandes, como a parte inferior da famosa estátua de Darius (somente metade e mesmo assim GRANDE), suntuosa e carregando os emblemas dos 24 povos que faziam parte do Império Aquemênida.

E foi aí que vi...e foi aí que vi algo que queria ver desde os tempos do colégio: em granito, a fachada com a representação da coroação de Xerxes I com Darius, seu pai, sentado em trono real.  Maravilha!!! As figuras estão todas de lado, como se fora uma fila. Conhecemos mais esta disposição de figuras na arte egípcia. Fiquei uns dez minutos vendo a cerimônia de coroação de Xerxes e a estátua de Darius. Depois ainda vimos exemplos de escrita cuneiforme, mais vasos, leões, adagas, etc. Foi quando, às 16:50h, um funcionário veio até nós e foi logo avisando: “Time End”, “Time End”, querendo dizer, claro, que o expediente estava encerrado.

Saímos do local, fumei um cigarro e comentei com Saulo sobre o antigo desejo realizado. Andando pela rua lateral do museu, esta com calçadas largas(Rua Tir), fomos à procura do restaurante Gol-e Rezaiyeh (endereço:30 Tir St.) conforme indicação no blog de Carolina Dutra. Infelizmente, estavam fechando o restaurante, que ficaria fechado no dia seguinte por causa do feriado religioso.



Voltamos então em direção ao museu para pegar um taxi de volta para o hotel. Pegamos um taxi bem rodado e amassado, com um senhor de idade bastante simpático. Acertou o preço de 200.000 rials e concordamos. Mas eis que, ao chegarmos ao nosso destino, aconteceu o TAAROF.

Taarof “é a aceitação implícita da mentira”(como diz Samy Adghirni no livro OS IRANIANOS). O que aconteceu foi que, quando fomos pagar o taxi, o senhor motorista simpático disse que não era preciso pagar!!!! Como eu já tinha lido sobre esse comportamento ou jogo de etiqueta, insisti para que ele recebesse o pagamento. Foi embora contente e nós também, agradecendo mersee, merssee...

Bastou chegarmos à recepção do hotel para sabermos duma apresentação de ZURKHANEH dentro de uma hora e quinze!

(FC)

sábado, 4 de outubro de 2014

Segundo dia - Zurkhaneh

Com a ajuda de um cara que trabalha no nosso hotel, conseguimos a indicação de um lugar onde pudemos assistir a uma apresentação de Zurkhaneh, uma mistura de esporte, técnica de treinamento, ritual, que é bastante tradicional no Irã.

Muito legal também porque os rituais são acompanhados por um músico, que toca e canta, dando ritmo às demonstrações dos atletas. Nesta noite, por sorte, eles estavam recebendo uma pessoa que parecia ter alta reputação, pela forma como todos o reverenciavam, e esta pessoa cantou 2 músicas a capela, em momentos distintos da apresentação. Inesquecível!!!

Numa das fotos abaixo (tiradas da Internet) vocês podem ver uma espécie de malabares que eles movimentam com agilidade e força, mas nem fazem idéia do quanto eles pesam. Eu, sinceramente, já me acharia um super homem se conseguisse rolar lateralmente um destes objetos, sem tira-lo do chão, enquanto os caras fazem uma série de movimentos.





Fomos bem recebidos, incluindo um chazinho e um rápido papo na despedida, onde eles deixaram claro que "english no good", que no caso se referiam ao fato de que não gostam de americanos e estavam felizes que éramos brasileiros "brazil good".

Eu já tinha tinha tido conhecimento do Zurkhaneh numa exposição sobre a Pérsia, no British Museum, e foi muito legal ter conseguido assistir pessoalmente a uma apresentação.

Mais informações sobre o Zurkhaneh em:
http://en.wikipedia.org/wiki/Pahlevani_and_zoorkhaneh_rituals#The_zurkhaneh

(SB)

Chegada no Irã - primeiras impressões e curiosidades


Simpatia é a palavra que melhor define a primeira sensação que se tem ao chegar no Irã. É incrível como as pessoas daqui são simpáticas, começando pelo policial da imigração. Infelizmente tive que ouvir que ele adora Neymar. Quando penso na França vem logo à mente Victor Hugo, Proust, quando penso na Inglaterra penso em Isaac Newton, Shakespeare, e quando o iraniano pensa no Brasil vem à mente a peste do Neymar. É foda!!!

O aeroporto fica bem longe do centro, aliás longe pra cacete, mas a viagem de taxi é barata. Conhecemos 3 alemães no aeroporto e rachamos um taxi grande, que custou 900.000 rials, o que dá uns 80 reais. Motorista muito atencioso, trocamos algum diálogo, ele em persa e eu em português, e nos despedimos com a sensação de que somos amigos.

Aliás, pegar táxi é uma aventura no Irã porque eles não têm taxímetro, de forma que as corridas são negociadas na hora, sendo que não pegamos nenhum taxista que sequer arranhe no inglês. A técnica de negociação é escrever os números num papel ou ficar adicionando ou retirando as notas de dinheiro, até chegar na quantia acordada pelas partes.

Falando em quantia, outra confusão. A moeda oficial daqui é o Rial, mas eles também usam o Toman, que vale 10 vezes mais que um Rial, sendo que as notas vêm em Rial. Ou seja, quando alguém fala que tal coisa custa 10.000 você precisa saber se é Rial ou Toman, porque neste caso vai custar uma nota de 100.000 Rials. Parece bobagem, mas dá uma confusão danada para marinheiros de primeira viagem.

Chegamos no hotel bem cedo e por intuição, sorte ou proteção divina o hotel (Sepehr, da rede Melal) era muito legal, num bairro muito legal. Nosso quarto é imenso e já me fez pensar se realmente preciso de uma casa do tamanho da que estou construindo. Seguem fotos da entrada no hotel e do quarto.






Depois de descansar da longa viagem, fomos andar pelo bairro e descobrir o quão bonitas e charmosas são as mulheres daqui. Todas usam um véu cobrindo a parte de trás dos cabelos e raras cobrem toda a cabeça (usam Chador). Bem maquiadas, fumando, indo aos cafés e restaurantes com amigas, rindo, trocando olhares, num nível muito mais interessante e elegante do que encontramos em 98% do território brasileiro e 99,99% do território sergipano.

Aliás, um fato interessante foi observar todas as mulheres no avião colocando o véu, assim que o vôo aterrissou em Teerã. Curioso porque estas mesmas mulheres estavam sem usar o véu no aeroporto de Istambul.

Uma curiosidade sobre o bairro são as calçadas, muitas delas com uma largura minúscula, que mal passa uma pessoa de lado. Isso quando tem calçada! 



Por outro lado, prédios suntuosos e um charme que não consigo definir. Só sei que gostamos muito e que nos causou uma sensação de bem estar.

Terminamos o dia num restaurante de comida internacional, sem nada a acrescentar. Estávamos cansados e sem condições de explorar possibilidades mais interessantes de culinária iraniana. Contudo, valeu pela nossa primeira experiência de tomar suco de Romã. Maravilhoso!

(SB)